A ideia da paternidade, não adianta negar, é algo que a, partir de certa idade, acompanha a vida de qualquer homem. Minha relação com essa ideia, ao longo do tempo, e por muito tempo, sempre foi longínqua, abstrata. Quase sempre eu a imaginava como algo distante, só realizável num futuro muito indeterminado. Nossa imaginação quanto a filhos certamente oscila entre os pólos da idealização e da fobia, e certamente também nossa experiência como filhos e nossa visão do estado de coisas no mundo influencia tudo isso. Devo ter passado por todas as fases em relação a essa ideia. Tive as fases do “não quero repetir os erros dos meus pais”, do “não tenho vocação pra ser pai” ou “não dou conta nem de mim, quanto mais de um filho”, do “já tem gente demais no mundo”, do “como colocar alguém num mundo desses”, do “só serei pai se tiver as condições adequadas”. Mas realmente, a convivência com uma mulher amada, entre outras coisas, nos traz concretude pra ideia de paternidade, e a possibilidade abstrata vai pouco a pouco se tornando desejo de amar ainda mais e o Tempo, sempre o Tempo, nos transforma em seres mais abertos. De relação em relação, de olhar em olhar para a sociedade, a ideia de ser pai foi se naturalizando. Ver os outros pais, observar outros exemplos, outras vidas, vai tirando também o monopólio do grande modelo que foi a nossa experiência como filhos. Também os “filhos” que a gente vai tendo pelo caminho, nossas obras, feitos, realizações, vão dando confiança para o ato corajoso de colocar alguém nesse mundo. Alguém que você de antemão já sabe que não tem opção, a não ser amar e cuidar muito. Alguém que não é uma relação opcional, por afinidade eletiva, que você escolhe dependendo das circunstâncias, mas sim intrínseca, para sempre.

Quando Erika e eu decidimos que era o momento, percebi que, no fundo, sempre desejei ser pai. Pensar no assunto ao longo da vida, problematizar em si, já era sinal real de interesse (do contrário, talvez tivesse sido sempre uma questão fechada: eu não teria filhos e pronto). Lembrei que havia momentos fugazes, sim, em que eu fantasiava ter um filho, escolher um nome etc. E duas coisas me chamam atenção aí: a primeira é que naturalmente me vinha a imagem de uma menina, talvez uma preferência mesmo. A segunda é que vinha sutilmente associada a ideia de fazer diferente, criar de outro jeito, ter outra experiência que não a minha. Acho que desejar uma menina tem a ver com a sensação antiga de que o mundo é e sempre foi yang demais, precisa de mais energia feminina. No meu universo cultural sulista, vivi sempre muito cercado de macheza e dureza e talvez a menina representasse a suavidade. Quanto a fazer diferente, acho que todo mundo, em certo grau, vê o filho como uma chance que a vida dá para um acerto de contas com a própria história. E nessas épocas eu talvez ainda não percebesse o quanto a gente reproduz a nossa criação, tudo o que fizeram e disseram pra gente…

Pois bem, Iara chegou, muito desejada, não foi fácil engravidar, tivemos que persistir, o que só aumenta o desejo. Em desistir pensamos, mas confesso: queria ter a experiência do sangue, embora ache maravilhoso a ideia da adoção. Gravidez bem cuidada, conversada, e relativamente tranquila, e eu sempre tive confiança, mas lá no fundo os rumores e relatos fazem os pequenos temores de cada um se fundir num temor maior: a vida é muito frágil, quantas coisas podem acontecer. A medida em que eu via aquele bichinho se desenvolver na barriga – que ia se transformando, minhoca, sapo, macaquinho –, tudo ia aumentando: o desejo, a confiança. E as projeções e fantasias. Quando soube que era menina, parecia que sempre soubera. No fim, de todos os temores, os piores e mais reais a ser enfrentados foram os da cultura médica, que quase nos levaram a uma cesárea desnecessária e indesejada. Ainda assim, o grito único e forte que Iara deu ao sair da sua mãe está pra sempre gravado em mim. Gosto muito de saber que ajudei de modo essencial pro parto, me apropriando também da história desse momento, que é tão da mãe e do rebento. Logo ali ao lado da cama do parto, enquanto examinavam a bebê, eu tapando a luz que a incomodava, se desfez pra sempre qualquer possibilidade de eu não amar demais aquele ser.

De lá pra cá, sete meses que parecem vidas e ao mesmo tempo passam voando – uma fantástica contradição do Tempo. É tudo tão intenso e novo e muda tanto, você não consegue se lembrar direito de como era há pouco. Dois, quatro meses… parecem momentos distantes. Você vive o presente, que é intenso, e por isso parece que vai perdurar – e fácil você pode se desesperar pensando que algo jamais vai mudar, p. ex. o choro na madrugada ou a dor no mamilo. (Sim, a simbiose do casal aumenta exponencialmente, ainda mais no nosso caso, em que, sendo artista sem emprego fixo, estou bastante em casa.) Só que as coisas mudam sim e passam pra outro momento igualmente intenso. De modo que só há o presente. Fantasias e projeções tem pouco espaço agora diante da presença concreta da Iara. E da pura e simples sensação de esperança que ele emana.

Devo dizer que aquele desejo de fazer diferente, e assim “consertar” a minha experiência de vida através de minha filha, se apresenta claro agora. Mas a verdade mesmo é que não há muito espaço pra refletir: Iara e seu duplo, sua mãe, demandam atenção constante e intensa, e ao mesmo tempo ainda estou mergulhado no maravilhamento da presença da bebê. Que a gente não cansa de chamar de milagre, de coisa inexprimível.

De cara, me maravilhou sua força. Literalmente, não pensava que um bebê pudesse ser tão forte, agarrar as coisas e a gente com tanta firmeza. Depois, me hipnotiza ainda a espontaneidade, a limpeza do olhar que mira, que triangula, o desejo em estado puro, e me transporto muitas vezes para a minha infância, voltando a sensações e descobertas, relembradas ou adivinhadas, e aí não tem como: a gente inevitavelmente se pergunta onde deixou a própria fluidez. E daí à questão: como não deixar que ela perca demais tudo isso? A gente vai resolvendo tudo dia a dia, aprendendo com ela e não dá pra inventar a roda, impossível não dar também à bebê a voz de outros, da tradição, dos nossos pais. Então a resposta parece ser o corpo, o tempo todo estou tentando deixar seus movimentos livres, seu impulso ter consequência. Deixar ela ser o bichinho que quiser ser. Talvez o primeiro passo de educar para a liberdade seja dar liberdade ao corpo.

Mas o cansaço. Aos 48 sou um pai-avô, como gosto de brincar. Percebo meu cansaço físico e vejo inversamente toda a potência dela. O espernear frenético, o voar, o atirar-se cegamente sabendo que estamos sempre ali para segurá-la. Tento não pensar muito nisso e sim apenas ir achando jeitos, soltando e meu corpo, otimizando minha energia. Nem sempre consigo. Mas como um peixe voador, Iara me seduz nas jornadas dessa jornada. Será sorte ela ser tão sorriso, tão feliz com a gente e mesmo com os outros? Culpa da gente ou caráter próprio dela? Não sei. O que sei é que as felicidades se confundem, a minha e a dela. Sim, o sono nunca foi nem será mais o mesmo. Mas constato: perdi o medo de não dormir mais. Já sei e aceitei: vou dormir quando der. A força desse peixinho-escorpião me ajuda a continuar, nunca cansando de ver nela – com seus olhos azuis que ninguém na nossa geração tem – o avô morto que não conheci, os antepassados, a conciliação com minha história.

Mas dá trabalho né? Sim, um trabalho indizível. Fora o trabalho que se perde de fazer pra cuidar dela, e que seria tanto pra me realizar quanto pra ganhar dinheiro e sustentá-la. Não sei como será o futuro e há muitos desafios pela frente. Mas o engraçado é que aquele pessimismo histórico de antes não desapareceu, só está mais realista, menos apocalíptico: ele se alimenta agora do otimismo, da esperança concreta que Iara traz. Meu peixinho voador lançou as águas da alegria na minha realidade.

 

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