Qual é o seu nome?

Quantas vezes em nossas vidas já ouvimos essa pergunta, e quantas outras vezes ainda estamos por ouvir? Incontáveis, provavelmente.

Como se chama? A resposta é certeira, automática, é como se não houvesse alternativa, afinal nosso nome precede o reconhecimento de nossa existência, ele já estava lá, usualmente antes mesmo de nosso nascer. Maria sempre foi Maria. Pedro sempre foi Pedro. Maria não escolheu ser Maria. Pedro não escolheu ser Pedro.

Maria e Pedro não escolheram seus nomes, alguém escolheu por eles. Há uma história, há um simbolismo, há afeto em cada escolha de nome, seja ela consciente ou não.

Há os que têm uma relação próxima com esse afeto, sabem detalhadamente como seus nomes foram escolhidos, e constantemente acessam o relato de seus pais. Há os que não fazem idéia da história de seus nomes. Há os que não reconhecem nenhuma história, o que por si só não deixa de ser uma história.

Quando somos nomeados, simbolicamente somos marcados, passamos a ser reconhecidos por aquele nome dentro de uma rede de relacionamentos. Deixamos de ser anônimos, temos um nome, e carregamos o que ele representa aos olhos do/s outro/s diante de nós.

João Neto. Carrega com ele a honra e/ou o fardo de ter o mesmo nome de seu pai e avô. Como ele se relaciona com isso? Ninguém sabe, João é rapaz de pouca fala. Pode nunca ter pensado no que isso representa, pode gostar, pode odiar, mas a história e a carga afetiva nessa escolha estão presentes, mesmo que longe da consciência e da racionalidade.

Elvis. Seu pai era fã do astro de rock. Seu nome é fruto de uma homenagem. Ele mesmo nunca ouviu as músicas do cantor responsável por seu nome, diz nunca ter se interessado, seu gosto musical é contrastante com os gostos de seu pai. Seu nome carrega consigo as projeções dos desejos de seu pai. Elvis não morreu.

Rosiana, a mãe queria Rosangela, o pai preferia Mariana. O consenso foi fazer a fusão, e assim foi nomeada Rosiana. Seu nome era sempre motivo de estranhamento para os que a conheciam. Alvo de piadas nas chamadas da escola. Quando perguntavam se ela gostava de seu nome, a resposta era um sim nada convincente. Rosiana nunca soube se deveria ser Rosangela ou Mariana.

Moises, seu nome vem da fé de sua família, personagem bíblico. Moises ia à Igreja religiosamente, qualquer deslize era considerado pecado, sempre teve a missão de ser “menino direito”. Sustentou essa missão até seus quinze anos, depois disso se rebelou, se envolveu com drogas e hoje está se reabilitando, atravessa os mares à procura de sua identidade, em busca de sua autonomia, “quem sou eu?” – se pergunta. Quem será Moises?

Há também os apelidos, muitas vezes substitutos dos nomes registrados, ora bem vindos, ora nem tanto. Loirinho dos olhos azuis, desde cedo Felipe era chamado de Alemãozinho por sua família e seus amigos do bairro. Hoje quando o chamam de Felipe ele quase não se reconhece, precisa se ligar para atender ao chamado. Hoje homem barbado, é chamado de Alemão, cresceu! Quando vai visitar seus amigos de infância volta a ser o Alemãozinho, mesmo tendo 1,90 de altura. Quando ouve o chamarem pelo apelido de infância é como se voltasse para seu lar, seu aconchego, assim se sente bem. Alemãozinho segue sua vida, parece distante de Felipe, tudo bem ser o Alemão, mas é sempre bom retornar às origens e reencontrar Alemãozinho.

Não podemos nos esquecer dos que tem de bancar uma difícil decisão, a de alterar seu próprio nome. Os motivos podem ser dos mais variados, mas usualmente a mudança de nome é algo de grande valor para quem corre atrás desse direito. O nome do registro não dá identidade, não dá acolhimento, é uma marca subjetiva dolorosa. A página tem de ser virada, a história não pode ser negada, mas para que o/a sujeito/a possa seguir seus passos ele precisa dar novo significado para algo de muito íntimo e primitivo, a escolha de seu próprio nome.

Ao tentar aprender um novo idioma, não é rara a lição de número um ser traduzir a pergunta “qual é o seu nome?” A lição número dois seria então traduzir a resposta “meu nome é…”.

Apresentar-se verbalmente é estabelecer uma comunicação, uma conexão, é uma forma para fundar vínculos relacionais, inerentes ao humano. Quem nunca se viu dando nome aquele objeto inanimado querido? Pode ser uma caneta, um carro, uma mesa, qualquer coisa que nos remeta a um afeto. Dar nome é também um modo de ligar-se afetivamente. Dar nome ao carro seria uma tentativa simbólica de dar vida ao que não vive, mas que sentimos como sendo vivo.

Antes mesmo de aterrissarmos no mundo, já existe uma rede de nomeações em constante movimento, uma cultura que nos aguarda, um contexto que nos espera. “Você prefere ter menino ou menina?” “Qual vai ser a cor da parede do quarto de nosso filho?” “Será que nosso filho vai gostar de futebol?” “Para qual time ele vai torcer?” “Como vai se chamar?”. São inúmeras as formas de nomeação.

Nomear seria uma maneira de oferecer um espelho ao novo ser que chega. Dependendo do que é espelhado, podemos nos reconhecer e assim integrar nossa identidade, ou pode ser que não haja possibilidade de identificação com o que é espelhado, e aí haveria uma desintegração do ser. Mais grave ainda, seria nem ter espelho. Por exemplo, crianças órfãs, abandonadas, não nomeadas. Dar nome em um sentido mais amplo seria pré-condição da possibilidade de constituição do ser. O afeto que vem de fundo com o nome, pode não ser enxergado com precisão, mas é presente em nossas relações. Estamos constantemente sendo convocados a participar dessa rede imaginária de nomeações, nomear é relacionar-se, e relacionar-se é humano.

André Girola*

Especialmente produzido para a seção “Vozes pela Infância”, do site do IPADH, ed. Ago/2017.

*Psicanalista, formado pelo Centro de Estudos Psicanalíticos, atende em consultório particular. Graduado em Turismo pela Universidade de São Paulo, estudou também comunicação por um semestre na Libera Università di Lingue e Comunicazione em Milão. Site: http://www.andregirola.com.br

 

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